quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

A fé e o sistema monetário



Não é de hoje que a fé religiosa divide o mundo, tanto ideológica como geograficamente.  Desde que as igrejas começaram a surgir como poderosas instituições e se embrenharam nos dizeres do Estado, muitas guerras e divisões de territórios tiveram motivos religiosos e isso dura até hoje, talvez com menos força na maioria dos lugares (especialmente onde a igreja católica tinha o domínio), mas muito presente ainda em outras partes do globo.
Me arrisco a dizer, no entanto, que existe um outro tipo de fé que não distingue geografia, raça, cor ou credo e que de certa forma unifica a todos nós – mas não no sentido positivo do conceito de unificação. E essa é a fé no sistema monetário, ou seja em tudo aquilo que tem a ver com o fluxo de dinheiro em nossa sociedade.
Antes de prosseguir, gostaria apenas esclarecer o significado da palavra  para que ninguém ache que exista algum sentido espiritual ou metafísico na reflexão a seguir.
Do Wikipedia:
 (do Latim fides, fidelidade e do Grego pistia[1] ) é a firme opinião de que algo é verdade, sem qualquer tipo de prova ou critério objetivo de verificação, pela absoluta confiança que depositamos nesta idéia ou fonte de transmissão.
Com o exposto acima estabelecido, podemos começar a refletir sobre nossa relação com o sistema monetário, e perceber que é uma relação baseada na mais completa ignorância e confiança, o que poderia ser traduzido em fé cega.
O dinheiro é uma parte importantíssima de nossas vidas. Passamos boa parte de nosso tempo nos preocupando com ele: como conseguir ganhar mais, como gastar o que tenho da melhor maneira possível, quanto devo gastar com minha saúde, quanto gastar com minha moradia, será que não paguei muito caro naquela camiseta?
Praticamente todos os aspectos de nossa vida em sociedade estão atrelados direta ou indiretamente ao fluxo de dinheiro. E mesmo assim, ninguém entende direito o que é esse negócio chamado “dinheiro”. Por que ele existe? Como ele é criado? De onde vem? Para onde vai? Dinheiro tem fim?
A ignorância em respeito ao nosso sistema monetário (ou seja, baseado em moeda – dinheiro) tem a ver com a extrema (e intencional?) complexidade desse sistema e o baixíssimo nível de instrução da grande maioria da população planetária. Mesmo se quiséssemos, seria virtualmente impossível explicar a todos como funciona o sistema monetário de maneira que todos o entendessem completamente. E isso é muito cômodo para os que estão em posição privilegiada de acesso à recurso e informações, pois a vantagem em obter mais e mais dinheiro é evidente.
Por isso gosto de comparar a relação das pessoas em relação ao sistema monetário com a fé, ou seja a confiança completa de que esse sistema é sólido, é correto e faz sentido. Ninguém sabe como funciona, mas sabe que “está lá, em algum lugar” e “tem pessoas trabalhando para mantê-lo funcionando”.
Podemos afirmar que, de fato, ele existe (ou seja, “está lá”), mas basta olhar com um pouco mais de cuidado para perceber que ele está longe de ser ideal, sólido, correto, ou fazer sentido. E isso – ou seja, olhar com mais cuidado – ninguém faz. Ninguém questiona. Ninguém para e se pergunta: “como o dinheiro é criado?”, “O que acontece quando deposito meu dinheiro no banco?”. Será que as pessoas sabem que o dinheiro é criado a partir da dívida e que essa dívida cresce mais rapidamente que o dinheiro disponível para pagá-la devido aos juros?
Podemos até fazer comparações na relação das pessoas com o sistema monetário e as religiões. Apesar de não tão bem definida como a religião, que herdou sua hierarquia das instituições militares, existe uma estrutura vertical de poder no sistema monetário. Acreditamos no que dizem os ministros, presidentes de bancos centrais, FMI e afins, da mesma forma que fiéis absorvem ensinamentos dos sacerdotes. Se ele falou, deve estar certo. Para explicar a crise, aparece um sem-número de economistas, cada um com uma explicação, que na opinião dele é a melhor de todas. Alguns entendem metade do que dizem, outros não entendem nada mas acham (e fingem) que entendem e a grande maioria sequer se importa em ouvir pois já sabe que ele vai falar grego (ou latim – como nas primeiras missas, onde ninguém entendia mesmo!).
Os bancos são como templos. Depositamos lá nosso dinheiro sem ter a mínima ideia do que é feito com ele. Confiamos todo o produto de nosso trabalho à essas instituições, que estão entre as mais poderosas do planeta, ignorando totalmente que ao entrar lá, nosso dinheiro é usado para que o banco crie mais dívidas e produza mais dinheiro (e lucro) para si. Isso eles não mostram nas propagandas com famílias felizes. Todo início de mês é como uma data religiosa e vemos a procissão de assalariados e pensionistas enfrentando filas para retirar seu dinheiro e pagar suas contas.
As crises vem e vão, países quebram, dívidas externas levam nações inteiras a falência e a grande massa sempre (com a ajuda de nossos analistas-sacerdotes, sempre com respostas na ponta da língua) segue acreditando que existem causas políticas, ou “naturais” do mercado para isso. Acreditar (ou ser levado a crer) que existam tais “fenômenos naturais” do capitalismo não é muito diferente que associar uma chuva ou um trovão à fúria de um deus do Olimpo.
A ciência foi capaz, após duras penas, de por um fim nesse tipo de ignorância. O problema é que o sistema financeiro e o capitalismo estão longe de serem sistemas criados com base no método científico e é por isso que precisam da “confiança” e da fé para se sustentar.

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