domingo, 6 de fevereiro de 2011

O Homem que buscava a Deus

Um dia de outono, quando o silêncio dos ruídos humanos deixava ouvir os ecos da Natureza, tive oportunidade de presenciar uma cena original, simbólica.
Sentado à beira do caminho, observava atentamente, enquanto o sol empalidecia, o aloucado rolar de folhas secas que o vento fazia desfilar ante meus olhos: pareciam diminutos gnomos dançando ao redor de um círculo traçado por um obstinado redemoinho. outra procissão de folhas presidia a marcha forçada de um peregrino que se aproximava num passo lento. Mais à frente, esperava-o uma fada que reunia em si os sublimes encantos de uma perfeita beleza.
Minha presença ali deve ter chamado muito pouco a atenção dos personagens que eu via, pois que, sem reparem em mim, como se eu fosse invisível ou algo que não existisse, iniciaram o seguinte diálogo:
FADA: - Aonde vais, bom homem?
PEREGRINO: - Ao infinito; busco Deus.
FADA: - Pobre caminhante, andaste já um longo trecho?
PEREGRINO: - Sim, muito longo; estou fatigado...
FADA: - Quem és tu?
PEREGRINO: - Saberei quando encontrar a Deus.
FADA: - Onde vives?
PEREGRINO - Não tenho abrigo; vivo ao sabor das intempéries.
FADA: - Acredita em Deus?
PEREGRINO: - Sim: uma só vez o vi em sonhos, e desde então o busco.
FADA: - Em sonhos? E acredita neles?
PEREGRINO: - Sim, acredito. Desde então sonho acordado, para poder acordar nos sonho...
FADA: - Que iluso! Por acaso as alucinações transtornaram teu cérebro?
PEREGRINO: - Como te atreves a falar-me assim?Acaso não é nos sonhos onde estamos mais perto da verdade?
FADA: - De fato; mas não te esqueças de que tão prontamente podes aproximar-te dela como afastar-te, sem que notes a mudança.
PEREGRINO: - Por isso procuro a Deus, para que me dê a compreensão dos câmbios, das distâncias e do valor real das coisas que existem.
FADA: - E onde acreditas encontrar a Deus?
PEREGRINO: - Não sei; mas sei que existe, porque, quando o chamo, treme a terra sob meus pés, e ate há vezes em que me parece ouvir sua voz.
FADA: - E que conceito tens formado sobre Deus?
PEREGRINO: - Nenhum. não há mente humana capaz de conceber a infinita expressão de sua divindade.
FADA: - Então, para que vieste a este mundo cheio de dores e misérias?
PEREGRINO: - Justamente para isso, para buscar a Deus. Já vim tantas vezes!...E quando ao regressar me perguntam se o achei, e eu lhes digo que não, novamente me obrigam a partir para a Terra em busca.
FADA: - pobre peregrino! Vejo que assoma uma lágrima em teus olhos. Porventura sabes chorar?
PEREGRINO: - E quem não aprende a chorar aqui? Acaso não é do pranto que aprendemos a viver?
FADA: - Ah, sim!; muitas vezes o pranto te recorda que tens coração e , assim, te lembras do coração de Cristo.
PEREGRINO: - Isso é verdade, e o pior é que, recordando-o esquecemos o grandioso significado de sua dor.
FADA: - Diz-me tu, que buscas a Deus: confessas ter esquecido a lição de Cristo?
PEREGRINO: - Sim; muitas vezes recordei e muitas vezes esqueci seus ensinamentos, como também muitos outros, e é por isso que peregrinamos...
FADA: - E por acaso o cansaço de tais peregrinações te surgiram a idéia de tomar esse caminho?
PEREGRINO: - Sim, mas a simples idéia de morrer como Ele me aterroriza, me causa espanto.
FADA: - Morrer? por acaso morreste alguma vez?
PEREGRINO (recordando): - Morrer, morrer alguma vez...Oh, fada misteriosa! Tuas palavras vibram em minha alma! Tu me despertaste de um sonho horrível... Eu me havia extraviado nas trevas da noite e buscava a Deus na escuridão, sem outra tocha senão a débil luz de meu entendimento. Tu me ensinaste, num só instante, o que em minha longa peregrinação não pude aprender. Fui um néscio como tantos outros que só crêem no que seus olhos vêem, e que negam o que está oculto aos olhos físicos, mas não assim aos da alma, os únicos em realidade capazes de ver. Confesso que fui um néscio e que, apesar de em tão árduas jornadas eu sempre aprender algo mais sobre aquilo que um dia me ensinaram, sempre duvidei, e foi assim que esqueci o essencial: a virtude de pensar e meditar sobre o que tinha aprendido, não podemos jamais conceber o infinito significado do expressado em tuas últimas palavras, aquelas que produziram em mim o efeito sublime da ressurreição.
FADA (afastando-se): - Ate breve, peregrino; já não tardarás a encontrar a morada d'Aquele que já não buscas, porque Ele mesmo te chama de dentro. Ate breve; finalmente aprendeste a lição.

(Intermédio Logosófico - Carlos Bernardo González Pecotche [RAUMSOL])
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