domingo, 25 de setembro de 2011

Pessoas



Quem sou eu? Não me façam essa pergunta, pois nem mesmo eu sei respondê-la. O que quero? Falar de pessoas. Mas não as pessoas de hoje, quero falar das pessoas do futuro. O melhor a fazer para tanto é ir até elas, pois que seja então, vamos ao futuro ver as pessoas...

*
Que dia é hoje? Não sei, e antes que todos digam que não sei de nada vou dizer logo o que sei: estamos na Praça da Sé, em cima do Marco Zero da cidade. Digo ainda mais, são oito horas da manhã e sabem o que eu ouço aqui? Nada! Nenhuma voz, nenhum som, nem mesmo os sinos da catedral soaram hoje. O que há no centro da cidade? Na verdade não há. Não há pessoas na Sé, dá pra acreditar? Pois bem, vou a outro lugar, lá as pessoas devem estar.

Vale do Anhangabaú. Quem nunca aqui esteve já ouviu falar ou já viu reportagens na televisão sobre ele. Aqueles shows populares cheios de pessoas, algumas bêbadas, muitas drogadas, poucas pacíficas, mas todas eram pessoas. Pessoas que estão ausentes hoje. Nada. Nem sequer vestígios da existência delas. Mas os gatos continuam ali, a porta do Museu do Theatro Municipal na Praça Ramos de Azevedo. O mato esta alto, a fonte continua seca, mas a escadaria que leva ao suntuoso teatro não fede, não tem mais aquele cheiro fétido de urina humana que sempre teve.

E agora, para onde eu posso ir e encontrar pessoas? Sim, a Mário de Andrade! Aquela biblioteca sempre me fascinou, seu mezanino em pedras de mármore, as esculturas de importantes escritores da humanidade na Praça Dom José Gaspar e é claro, todos aqueles livros, desde literatura contemporânea a clássicos como Shakespeare e Camões! Vou até lá, mesmo se não houver gente, haverá livros.

Na biblioteca não havia ninguém, nada muito diferente da minha infância, mas deveria haver funcionários lá, nem eles estavam presentes. Não consegui ler, o que fez falta não foi o barulho, mas sim a presença do gênero que escreveu aqueles livros: pessoas.

Me vem a mente um outro lugar, pouco distante, longe de minha personalidade, a Galeria do Rock. Vou até lá, mesmo que as pessoas que lá estiverem não combinem comigo, ainda serão pessoas. Entrei pela rampa do Largo do Paissandu, vi todas as lojas - com os sempre (para mim) inusitados produtos – abertas, e mesmo assim sem vendedores. Subi suas escadas rolantes estreitas, as quais só uma pessoa por vez consegue usar. Mas hoje não há quem suba nela. A visão do largo, do começo da Avenida São João e daquela pequena igreja a qual nunca me lembro o nome já não é a mesma coisa. Por quê? Porque não há pessoas!

Já passa de meio-dia, uma ideia surge do recôndito do meu ser: 25 de março. Não é a data de hoje, é sim meu próximo destino. Passarei pelo Largo de São Bento e visitarei o mosteiro homônimo na esperança de ver algum fiel ajoelhado fazendo sua prece ou algum estrangeiro admirando o interior do templo. Nada novamente. Mas a ladeira Porto Geral há de estar cheia, a 25 como sempre formigará de pessoas procurando algum produto no maior shopping a céu aberto do mundo. Nada de pessoas lá também!

Não me perguntem como, mas até as dez da noite passei pela Bela Vista, Liberdade, Vila Mariana, Santo Amaro, Interlagos, Morumbi, Butantã, Pinheiros, Barra Funda, Freguesia do Ó, Jaraguá, Perus, Tucuruvi, Penha, Itaquera, Tatuapé, Brás, Mooca, Ipiranga e até mesmo Parelheiros, nada, nenhuma viva’lma que me fizesse companhia.

Desisti, voltei ao centro, o dia quase findo, fui para a paisagem que mais me emociona na cidade: o Viaduto do Chá à noite, com aqueles postes antigos e todo o clima do centro noturno da cidade! Já sem esperança alguma vejo surgir, do nada, um aparelho que pairava no ar. O vi cair lentamente, e no exato lugar onde ele surgiu começou a se materializar uma mão, na verdade duas, quando o aparelho chocou-se com o chão já via nitidamente um casal de mãos dadas, quase abraçados, atravessando o viaduto. Uma bela imagem em perspectiva: a cidade, os postes decrescendo em minha visão e um casal interagindo puramente, de pessoa para pessoa.

Peguei o aparelho, vi milhares, não, bilhares de pessoas interagindo lá dentro. No susto deixei-o cair, apavorado com que vi fugi, não sem antes dar uma última olhada no casal que neste momento já estavam no fim do viaduto, ainda abraçados e perceptivelmente olhando para as estrelas, elas que agora me acolherão e servirão de inspiração para o sorriso daquele casal, que no fim de tudo são unicamente PESSOAS.

(06/04/2011 - São Paulo - Potter Ramsés)
http://potterramses.blogspot.com
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