quarta-feira, 10 de agosto de 2011

Tao 20 (2)



"Pare de pensar, e acabe com seus problemas.
Que diferença entre sim e não?
Que diferença entre sucesso e falha?
Você precisa valorizar o que outros valorizam,
evitar o que outros evitam?
Que ridículo!

Outras pessoas são empolgadas,
como se estivessem em um desfile.
Só eu não me importo,
só eu sou inexpressivo,
como um bebê que ainda não sorri.

Outras pessoas tem o que querem;
só eu não possuo nada.
Só eu estou à deriva,
como alguém sem lar.
Só eu sou como um idiota, minha mente é tão vazia.

Outras pessoas são brilhantes;
só eu sou sombrio.
Outras pessoas são espertas;
só eu sou tolo.
Outras pessoas tem um propósito;
só eu não sei.
Eu vago como uma onda no oceano,
Eu vou tão sem direção quanto o vento.

Eu sou diferente das pessoas ordinárias.
Eu bebo dos seios da Grande Mãe."



-


Tradução e Versão do Humberto Ronden


Renunciai à vossa pretensa cultura,
E todos os problemas se resolvem.
Oh! quão pequena parece a diferencia
Entre o sim e o não!
Quão exíguo o critério
Entre o bem e o mal!
Como é tolo não respeitar
O que merece ser respeitado de todos!
Ó solidão que me envolve todo!
Todo o mundo vive em prazeres
Como se vida fosse uma festa sem fim,
Como se todos sorrissem em perene primavera!
Somente eu não sei o que farei...
Sou como uma criança que desconhece o sorriso.
Sou como um foragido
Sem pátria nem lar...
Todos vivem na abundância,
Somente eu não tenho nada....
Sou um ingênuo, um tolo...
É mesmo para desesperar...
Alegres e sorridentes andam os outros!
Deprimido e acabrunhando ando eu...
Circunspectos são eles, cheios de iniciativa!
Em mim. tudo jaz morto.
Inquieto, como as ondas do mar,
Assim ando eu pelo mundo...
A vida me lança de cá para lá,
Como se eu fosse uma folha seca...
A vida dos outros tem um sentido,
Eu não tenho uma razão de ser...
Somente a minha vida parece vazia e inútil;
Somente eu sou diferente de todos os outros -
...........................................................................................
E no entanto - sossega meu coração!
Tu vives no seio da mãe do Universo.
(Lao-Tse)


Explicação Filosófica:

À primeira visa parece estranho esse pessimismo do autor, esse lúgubre desânimo da vida, que lembra os lamentos de Jó. Mas não convém esquecer que todo o homem que deixou a sociedade dos profanos tem, de início, a sensação de uma solidão imensa, de um saara sem oásis; sente-se exilado sem pátria sem lar. O homem espiritual se sente desambientado aqui na terra; ninguém o compreende; todos o consideram como um estranho, não pertence ao nosso mundo. O próprio Jesus passou por estes transes:"As raposas têm suas cavernas, as aves têm seus ninhos - o Filho do Homem não tem onde reclinar a cabeça". E a seus discípulos diz ele:"Por causa de mim e do Evangelho sereis odiados de todos..."."Bem-aventurados os que choram..."
Ao descer de Tambor, ele exclama: "Ó geração perversa e sem fé! Ate quando estarei convosco?
Ate quando vos suportarei?"...
Mas essa aparente solidão e abandono do homem espiritual é a "Comunhão dos Santos", a mais bela do Universo, como Lao-Tsé lembra nas últimas linhas. É o total abandono de Jó - que estava na companhia de Deus, no coração do Universo. Abandonado se sente o ego - bem amparado está sempre o Eu. "Meu Deus, meu Deus, por que abandonaste?...Pai, em tuas mãos entrego o meu espírito."




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